Hoje só vou estudar mais tarde.
Sei lá, acho que preciso pensar um pouquinho nos últimos dias, nos últimos meses. Dando uma lidinha nesses textos “velhos” do blog, lembrei de uma história que já até parece “velha”, mas me foi contada há pouco tempo.
Um dia desses, um staff que eu não lembro quem, mas que deve ser alguém legal (afinal se não fosse, eu não lembraria do que ele falou), disse que a melhor época da vida de médico era ser interno, que depois tudo ia ser muito solitário, “só você, seu carimbo e um doente querendo saber o que tem”.
Vai ver ele tem mesmo muita razão. Não faz muito, só pra ser do contra, ou por acreditar até demais em coisas além do céu e da terra, rsrsrs, fiquei sozinha na clínica médica. Não completamente, mas em alguns aspectos mais que completamente sozinha. Eu bati o pé e disse: esse hospital. Bati o outro e disse: esse serviço.
E eu fui sozinha...talvez porque eu queria provar pra mim que as coisas que eu acreditava estavam certas e que eu podia fazer do meu jeito...não sei porque...no começo, ah no começo foi incrivelmente surreal e divertido, mas claro, chegaram momentos que eu quis que as pessoas de antes estivessem mais pertinho.
Então outras pessoas foram aparecendo e aparecendo. Pessoas que eu não sabia o nome antes, mas que hoje eu sei onde estão pelo barulhinho dos passos chegando lá pelas 7:15h, pela letra da evolução ou pela mochila colorida colocada na ponta esquerda na cama do beliche perto da cortina.
O fato é que...a clínica médica está acabando e essas pessoas, que hoje são a minha nova definição de estar por perto, vão embora como as que estavam antes de certa forma foram e...vai chegar o último dia do serviço...vai chegar a última prescrição...o último plantão.
Não tem o que fazer...vai chegar e pronto. Por mais que eu quisesse continuar vendo todo mundo, todos os dias, simplesmente não vai dar. E ai...talvez eu encontre essas pessoas de novo, entrando em um hospital, vendo um paciente em comum, quem sabe...
Mas ah...quando estivermos só eu, meu carimbo e um paciente querendo saber o que tem, acho que essas pessoas de uma forma ou de outra vão estar no que eu vou dizer, na forma como eu vou pensar, no jeito que eu vou tratar. As pessoas que realmente importam, eu sei, vão estar, elas sempre vão estar, mesmo sem saber ou às vezes sem que eu mesma saiba....elas vão estar lá comigo.
segunda-feira, 13 de junho de 2011
quinta-feira, 17 de março de 2011
Pessoas e Casinhas
O que é certo e o que é errado?
Às vezes, tenho a impressão que todo mundo cria um método, involuntariamente, pra descobrir seus próprios certos e errados e que nunca pensa muito sobre isso.
Eu resolvi que eu quero/prefiro pensar sobre o meu método, como prefiro pensar sobre tantas outras coisas.
Ainda que não baseado em evidências...
As pessoas, eu e você, são como pequenas casinhas e dentro dessas casinhas existem livros imensos cheios de códigos secretos, que muitas vezes nem o próprio dono da casinha conhece até que alguém bata na porta e ameace a organização da rotina da casa.
E se eu e você somos casinhas, eu não posso entrar na sua e desrespeitar todas as regras ou te fazer infeliz no único lugar seguro do mundo...sua própria casa. Eu não posso desvalorizar o seu tempo, eu não posso por a prova a sua integridade, eu não posso ser displicente com seu sofá, sua sala, seu “carimbo” e principalmente eu devo tentar ler - mesmo que em silêncio e num cantinho bem escondido de você - seus livros pra saber o que pode fazer você se trancar no seu quarto e não querer mais argumentar comigo sobre assuntos além da sua calçada.
Ainda que por algum motivo eu quebre suas regras e mereça ficar no meio fio da sua porta da frente, saiba que eu só irei me importar com isso se eu tiver te dado, previamente - mesmo que você não tenha pedido, mesmo que você nem desconfie que tem - o direito de entrar na minha casa. Isso quer dizer que eu me importo com você, “simples assim” ou complexo assim.
E...se esse é “meu método”, meus pedidos de desculpas sempre...sempre...sempre, serão genuínos. Não deixarão de ser difíceis de ser pedidos, claro, mas seu te pedir será “simples assim” e complexo assim...como todas essas coisas que a gente não sabe porque, mas alteram a nossa casa a ponto de alterar o ciclo sono/vigília no melhor travesseiro do mundo.
Então...desculpa, tá bom?! Eu estou pedindo sinceramente. Eu estou pedindo de verdade.
Às vezes, tenho a impressão que todo mundo cria um método, involuntariamente, pra descobrir seus próprios certos e errados e que nunca pensa muito sobre isso.
Eu resolvi que eu quero/prefiro pensar sobre o meu método, como prefiro pensar sobre tantas outras coisas.
Ainda que não baseado em evidências...
As pessoas, eu e você, são como pequenas casinhas e dentro dessas casinhas existem livros imensos cheios de códigos secretos, que muitas vezes nem o próprio dono da casinha conhece até que alguém bata na porta e ameace a organização da rotina da casa.
E se eu e você somos casinhas, eu não posso entrar na sua e desrespeitar todas as regras ou te fazer infeliz no único lugar seguro do mundo...sua própria casa. Eu não posso desvalorizar o seu tempo, eu não posso por a prova a sua integridade, eu não posso ser displicente com seu sofá, sua sala, seu “carimbo” e principalmente eu devo tentar ler - mesmo que em silêncio e num cantinho bem escondido de você - seus livros pra saber o que pode fazer você se trancar no seu quarto e não querer mais argumentar comigo sobre assuntos além da sua calçada.
Ainda que por algum motivo eu quebre suas regras e mereça ficar no meio fio da sua porta da frente, saiba que eu só irei me importar com isso se eu tiver te dado, previamente - mesmo que você não tenha pedido, mesmo que você nem desconfie que tem - o direito de entrar na minha casa. Isso quer dizer que eu me importo com você, “simples assim” ou complexo assim.
E...se esse é “meu método”, meus pedidos de desculpas sempre...sempre...sempre, serão genuínos. Não deixarão de ser difíceis de ser pedidos, claro, mas seu te pedir será “simples assim” e complexo assim...como todas essas coisas que a gente não sabe porque, mas alteram a nossa casa a ponto de alterar o ciclo sono/vigília no melhor travesseiro do mundo.
Então...desculpa, tá bom?! Eu estou pedindo sinceramente. Eu estou pedindo de verdade.
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
O conhecimento e o significado
Meu conhecimento se preenche de forma emocional. Os meus significados definitivamente são emocionais. Para aprender eu preciso pegar, eu preciso sentir, eu preciso dar importância, eu preciso respeitar genuinamente quem me ensina.
E como é difícil encontrar alguém que você genuinamente respeita. Existem pessoas que se impõem porque você tem medo delas, pessoas que se valem de uma condição profissional hierárquica, pessoas que são academicistas ao extremo. E pessoas raríssimas que eu posso chamar pelo primeiro nome ou adicionar um Dr. ou Prof. sem que isso de fato importe, que não necessitam de titulações ou vocativos iniciais, pessoas nas quais eu simplesmente acredito e confio.
Ensinar alguma coisa a alguém...
Eu vou tentar fazer isso, escolhi tentar fazer isso. Tentar por respeito genuíno. Aliás é única forma que eu vejo como possível de ser tentada, porque é assim que eu aprendo, eu não conheço outra metodologia eficaz, eu não conheço outra forma de dizer a alguém como pegar em outra pessoa excluindo as questões emocionais que tudo isso envolve, eu não conheço uma forma de ser distante.
Eu não acho plausível ensinar alguém a fazer um exame físico desconsiderando toda a “mágica” e o temor disso. Apesar de fazer o que eu vou ensinar todos os dias, numa intensa e rápida rotina, eu lembro exatamente o que passava pela minha cabeça quando eu fiz minha primeira ausculta e não consegui distinguir nada, quando eu passei umas 4h tentando elaborar meu primeiro diagnóstico, quando eu tive que conviver com pessoas que achavam ser melhores ou maiores quando elas eram exatamente iguais a mim, uma aluna da semiologia médica para quem um hemograma configurava-se em um enorme mistério.
Ainda não sei a quem eu vou ensinar ou se vou ensinar realmente alguma coisa que não vai ser perder com o tempo, mas...nunca é desperdício tentar, certo?!
Ass: uma monitora idealista de Semiologia Médica, com planos de doutorado pós-residência médica.
E como é difícil encontrar alguém que você genuinamente respeita. Existem pessoas que se impõem porque você tem medo delas, pessoas que se valem de uma condição profissional hierárquica, pessoas que são academicistas ao extremo. E pessoas raríssimas que eu posso chamar pelo primeiro nome ou adicionar um Dr. ou Prof. sem que isso de fato importe, que não necessitam de titulações ou vocativos iniciais, pessoas nas quais eu simplesmente acredito e confio.
Ensinar alguma coisa a alguém...
Eu vou tentar fazer isso, escolhi tentar fazer isso. Tentar por respeito genuíno. Aliás é única forma que eu vejo como possível de ser tentada, porque é assim que eu aprendo, eu não conheço outra metodologia eficaz, eu não conheço outra forma de dizer a alguém como pegar em outra pessoa excluindo as questões emocionais que tudo isso envolve, eu não conheço uma forma de ser distante.
Eu não acho plausível ensinar alguém a fazer um exame físico desconsiderando toda a “mágica” e o temor disso. Apesar de fazer o que eu vou ensinar todos os dias, numa intensa e rápida rotina, eu lembro exatamente o que passava pela minha cabeça quando eu fiz minha primeira ausculta e não consegui distinguir nada, quando eu passei umas 4h tentando elaborar meu primeiro diagnóstico, quando eu tive que conviver com pessoas que achavam ser melhores ou maiores quando elas eram exatamente iguais a mim, uma aluna da semiologia médica para quem um hemograma configurava-se em um enorme mistério.
Ainda não sei a quem eu vou ensinar ou se vou ensinar realmente alguma coisa que não vai ser perder com o tempo, mas...nunca é desperdício tentar, certo?!
Ass: uma monitora idealista de Semiologia Médica, com planos de doutorado pós-residência médica.
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
Definitivamente Horrível.
Após breve pesquisa qualitativa de “n” duvidoso, mas com achados significativos (2 pessoas me falaram sentir o mesmo até depois da traumatologia), conclui:
O primeiro dia do segundo serviço de um interno é horrível.
Estou sem ferimentos (pelo menos superficiais). Meu murmúrio vesicular está presente. Sem febre, vômitos ou cefaléia. Mas mesmo assim aqui vai uma grande nota:
É horrível. Estou horrível. Me sinto horrível.
Um interno não tem suporte ou melhor ele não tem escudo. Lembro que 3 de janeiro minha preocupação era não saber nada. Hoje eu sei onde achar tudo, mas talvez não seja o que importa, talvez eu só não soubesse distinguir o que importava.
Há muito tempo, quando eu pensei seriamente em fazer outra coisa, pensei em pessoas e nas reclamações, na dor, nos traumas, em algum momento eu julguei que poderia viver escutando tudo isso sem maiores problemas.
Hoje não é horrível por isso, não é horrível pelas queixas.
Hoje não é horrível porque eu atendi um garoto que vai passar o resto da vida restrito ao leito com pessoas com medo dele ou porque a maioria dos pacientes do meu novo serviço vai morrer.
Hoje é horrível porque eu estou sem suporte. Hoje é horrível porque eu não sei se algum dia a minha confiança e a minha tranqüilidade vai depender exclusivamente de mim.
Hoje é horrível porque quando eu cheguei nessa “entidade” internato, eu não tinha construído nenhum escudo emocional, todas as minhas capas protetoras estavam em algum outro serviço ou outro hospital, então sem perceber eu deixei novas pessoas virarem minha proteção, meu perímetro de segurança, parte da minha versão pessoal da “teoria do apego”.
Hoje é horrível porque não tinha mais ninguém lá.
Não sai outra palavra, horrível horrível horrível horrível horrível horrível horrível horrível horrível horrível horrível horrível horrível horrível horrível horrível horrível horrível horrível horrível horrível horrível horrível horrível horrível horrível horrível horrível.
Será que alguns internos/residentes são tão distantes porque ele não querem nunca mais se sentir assim?
Com saudade?
O primeiro dia do segundo serviço de um interno é horrível.
Estou sem ferimentos (pelo menos superficiais). Meu murmúrio vesicular está presente. Sem febre, vômitos ou cefaléia. Mas mesmo assim aqui vai uma grande nota:
É horrível. Estou horrível. Me sinto horrível.
Um interno não tem suporte ou melhor ele não tem escudo. Lembro que 3 de janeiro minha preocupação era não saber nada. Hoje eu sei onde achar tudo, mas talvez não seja o que importa, talvez eu só não soubesse distinguir o que importava.
Há muito tempo, quando eu pensei seriamente em fazer outra coisa, pensei em pessoas e nas reclamações, na dor, nos traumas, em algum momento eu julguei que poderia viver escutando tudo isso sem maiores problemas.
Hoje não é horrível por isso, não é horrível pelas queixas.
Hoje não é horrível porque eu atendi um garoto que vai passar o resto da vida restrito ao leito com pessoas com medo dele ou porque a maioria dos pacientes do meu novo serviço vai morrer.
Hoje é horrível porque eu estou sem suporte. Hoje é horrível porque eu não sei se algum dia a minha confiança e a minha tranqüilidade vai depender exclusivamente de mim.
Hoje é horrível porque quando eu cheguei nessa “entidade” internato, eu não tinha construído nenhum escudo emocional, todas as minhas capas protetoras estavam em algum outro serviço ou outro hospital, então sem perceber eu deixei novas pessoas virarem minha proteção, meu perímetro de segurança, parte da minha versão pessoal da “teoria do apego”.
Hoje é horrível porque não tinha mais ninguém lá.
Não sai outra palavra, horrível horrível horrível horrível horrível horrível horrível horrível horrível horrível horrível horrível horrível horrível horrível horrível horrível horrível horrível horrível horrível horrível horrível horrível horrível horrível horrível horrível.
Será que alguns internos/residentes são tão distantes porque ele não querem nunca mais se sentir assim?
Com saudade?
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
O poder das pessoas
As pessoas têm poderes incríveis.
Nah, não é um texto piegas de esperança e cura e blá blá blá wiskas saché.
É um texto acerca de como algumas pessoas tentam desesperadamente arruinar a vida dos outros e a delas. Porque vamos falar a verdade, pessoas são as únicas que tem esse poder. Um instinto de maldade, de prazer pelo desprazer.
Existem aquelas frases existenciais do tipo “o outro só tem o poder que você dá a ele”. Certo, mas isso é o que é, frase de auto-ajuda. Frase a ser falada quando algo já aconteceu e você tenta juntar pedaços quebrados em uma enorme agonia.
Uma agonia terrível, um aperto, um sintoma sem descrição. Vontade de chutar alguma coisa. Vontade de alto flagelo. Não pelo que o outro fez, mas pelo simples fato de que você não pôde fazer nada, você não pôde dizer nada.
Aquilo que eu sinto e você sente quando alguém por motivo algum, ou por um motivo completamente sem sentido, tenta encher o próprio ego disforme rebaixando o seu. Quando uma pessoa escolhe que naquele dia, naquele momento, a felicidade que você construiu juntando pocinhas de acontecimentos alegres e meio bobos tem que ser desfeita porque ela precisa se sentir ilusóriamente maior.
Essas pessoas são tão difíceis de descrever. Eu não teria argumentos suficientes, não seria incisiva o suficiente, eu não poderia...eu não conseguiria...
Por que as pessoas que acham que tem opinião, não têm de fato opinião nenhuma e são mais vazias que barulho de concha em fim de tarde?
Por que eu tenho que dar ouvidos a essas pessoas?
Elas NUNCA vão cuidar das minhas pessoas.
Nah, não é um texto piegas de esperança e cura e blá blá blá wiskas saché.
É um texto acerca de como algumas pessoas tentam desesperadamente arruinar a vida dos outros e a delas. Porque vamos falar a verdade, pessoas são as únicas que tem esse poder. Um instinto de maldade, de prazer pelo desprazer.
Existem aquelas frases existenciais do tipo “o outro só tem o poder que você dá a ele”. Certo, mas isso é o que é, frase de auto-ajuda. Frase a ser falada quando algo já aconteceu e você tenta juntar pedaços quebrados em uma enorme agonia.
Uma agonia terrível, um aperto, um sintoma sem descrição. Vontade de chutar alguma coisa. Vontade de alto flagelo. Não pelo que o outro fez, mas pelo simples fato de que você não pôde fazer nada, você não pôde dizer nada.
Aquilo que eu sinto e você sente quando alguém por motivo algum, ou por um motivo completamente sem sentido, tenta encher o próprio ego disforme rebaixando o seu. Quando uma pessoa escolhe que naquele dia, naquele momento, a felicidade que você construiu juntando pocinhas de acontecimentos alegres e meio bobos tem que ser desfeita porque ela precisa se sentir ilusóriamente maior.
Essas pessoas são tão difíceis de descrever. Eu não teria argumentos suficientes, não seria incisiva o suficiente, eu não poderia...eu não conseguiria...
Por que as pessoas que acham que tem opinião, não têm de fato opinião nenhuma e são mais vazias que barulho de concha em fim de tarde?
Por que eu tenho que dar ouvidos a essas pessoas?
Elas NUNCA vão cuidar das minhas pessoas.
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
E foi de alta...
(escrito em 21 de janeiro de 2011 - 24h de criatividade)
E meu primeiro paciente internado (a rigor, o segundo) foi de alta. Pelo menos eu espero, às 15h ele ainda estava aguardando um carro, que vinha de um longínquo interior, levá-lo para casa.
Eu aprendi a prescrever, a evoluir, a prescrever de novo, a solicitar exames, a chegar cedo, a disputar o tensiômetro...esse tipo de coisa.
O dia foi bem produtivo. Consultei um paciente no ambulatório, um paciente que não era “protocolo de pesquisa” (rsrsrs) e de fato eu sabia o que ele tinha, e eu sabia que conduta tomar sozinha e eu sabia explicar o porquê dos exames e o porquê da medicação e um monte de outros “e”.
E...hoje eu passei o dia quase inteiro em observação letárgica.
Em oito dias, eu não dormi, descansei, eu não comi, engoli. Não que eu esteja achando essas as piores coisas do universo, surpreendentemente eu não tive preguiça de ir ao hospital nenhuma vez nesses 20 dias, deixei de fazer/ler coisas para dormir mais cedo e chegar mais cedo ainda no outro dia. Sabe, eu quis fazer tudo direitinho. Acho que eu devo ter de fato alguma aptidão pra ser médica, kkkkk.
Mas...ninguém pode viver o tempo todo assim. Embora eu saiba que minha vida vá ser assim uns 90% do tempo pelos próximos 6 ou 7 anos. Ainda faltam mais dois de internato, um dando plantão como recém-formada por aí, três de residência e depois...se tudo der certo...meu doutorado acesso direto. Não dá pra viver assim. Depois de oito dias eu queria ver meus amigos, eu queria viver a minha vida, tive saudade de tudo e de todos, dos meus cheirinhos familiares e não dos de outra pessoa.
E aí, eu fiquei lembrando de todas aquelas histórias que a gente ouve na faculdade, de pessoas que vivem medicina o tempo todo, que perdem a família ou nem chegam a construir uma, que fazem do repouso médico seu segundo lar. Não posso fazer isso. E não acho que eu esteja me afastando do modelo do médico ideal por isso, pelo contrário. Eu quero poder cuidar das pessoas sem deixar de cuidar de mim, eu quero ter – e acho que aprendi um pouco a ter essa semana – a exata medida de que a minha vida é tão importante quanto a das pessoas que eu cuido.
Nesses dias conheci tantas pessoas novas, conheci novas “velhas pessoas”, conheci pessoas tão doces e tão tranqüilas, que vivem com a medicina e não a medicina.
Pessoas que souberam construír um “pra quê” e um “pra quem” voltar no fim do dia. Que vivem seus desejos e suas aspirações sem precisar estabelecer patamares esdrúxulos de prioridades e, ainda assim, fazem o que podem por pessoas que nunca viram.
Talvez essas sejam as pessoas realmente felizes COM a medicina.
E meu primeiro paciente internado (a rigor, o segundo) foi de alta. Pelo menos eu espero, às 15h ele ainda estava aguardando um carro, que vinha de um longínquo interior, levá-lo para casa.
Eu aprendi a prescrever, a evoluir, a prescrever de novo, a solicitar exames, a chegar cedo, a disputar o tensiômetro...esse tipo de coisa.
O dia foi bem produtivo. Consultei um paciente no ambulatório, um paciente que não era “protocolo de pesquisa” (rsrsrs) e de fato eu sabia o que ele tinha, e eu sabia que conduta tomar sozinha e eu sabia explicar o porquê dos exames e o porquê da medicação e um monte de outros “e”.
E...hoje eu passei o dia quase inteiro em observação letárgica.
Em oito dias, eu não dormi, descansei, eu não comi, engoli. Não que eu esteja achando essas as piores coisas do universo, surpreendentemente eu não tive preguiça de ir ao hospital nenhuma vez nesses 20 dias, deixei de fazer/ler coisas para dormir mais cedo e chegar mais cedo ainda no outro dia. Sabe, eu quis fazer tudo direitinho. Acho que eu devo ter de fato alguma aptidão pra ser médica, kkkkk.
Mas...ninguém pode viver o tempo todo assim. Embora eu saiba que minha vida vá ser assim uns 90% do tempo pelos próximos 6 ou 7 anos. Ainda faltam mais dois de internato, um dando plantão como recém-formada por aí, três de residência e depois...se tudo der certo...meu doutorado acesso direto. Não dá pra viver assim. Depois de oito dias eu queria ver meus amigos, eu queria viver a minha vida, tive saudade de tudo e de todos, dos meus cheirinhos familiares e não dos de outra pessoa.
E aí, eu fiquei lembrando de todas aquelas histórias que a gente ouve na faculdade, de pessoas que vivem medicina o tempo todo, que perdem a família ou nem chegam a construir uma, que fazem do repouso médico seu segundo lar. Não posso fazer isso. E não acho que eu esteja me afastando do modelo do médico ideal por isso, pelo contrário. Eu quero poder cuidar das pessoas sem deixar de cuidar de mim, eu quero ter – e acho que aprendi um pouco a ter essa semana – a exata medida de que a minha vida é tão importante quanto a das pessoas que eu cuido.
Nesses dias conheci tantas pessoas novas, conheci novas “velhas pessoas”, conheci pessoas tão doces e tão tranqüilas, que vivem com a medicina e não a medicina.
Pessoas que souberam construír um “pra quê” e um “pra quem” voltar no fim do dia. Que vivem seus desejos e suas aspirações sem precisar estabelecer patamares esdrúxulos de prioridades e, ainda assim, fazem o que podem por pessoas que nunca viram.
Talvez essas sejam as pessoas realmente felizes COM a medicina.
Porque eu não falei nada ainda sobre meus pacientes
(escrito em 21 de janeiro de 2011)
É me perguntaram isso recentemente.
“Não tem nada sobre seus pacientes no blog, em quase um mês de internato”.
Não tem mesmo. Não sei, não me sinto a vontade pra falar sobre eles, afinal o que eu sei mesmo sobre eles?
A pressão arterial? O pulso? Os diagnósticos diferenciais?
Em tese, eu deveria me conhecer e ainda sei tão pouco sobre o que realmente posso fazer, ou como diriam os textos romanescos, o que sou capaz de fazer.
Então, seria muito injusto falar o que os meus pacientes fizeram, disseram...não, não dá pra dizer. Não é por causa do código de ética médica, tão citado quando alguém que não é/vai ser médico cita quando inicia uma discussão sem sentido sobre o que o “médico tem que fazer”. Não é por isso.
É porque eu sou uma interpretação. É porque eu vejo a vida deles e as coisas que eles me dizem como eu inconscientemente julgo que são. Eu não sei e não posso saber a verdade, o que é verdade, o que é mentira? Eu não quero fazer parte desse circo de “programa da tarde”.
Aliás, porque tem gente que acha que o HU é igual a um certo seriado popular de 40 minutos? “Os pacientes mentem”. “Isso é o que eles dizem, mas você tem que filtrar”.
Nessas horas um palavrão sempre surge no pensamento que sai em floquinhos invisíveis da minha cabeça, daqueles que saem dando voltinhas com o vento enquanto você faz cara de paisagem, esboça um sorriso simpático e finge que concorda com o “palestrante”.
Se o paciente “mente”, por que ele que fez alguma coisa de errado e não eu que perguntei tudo da forma errada? Fazendo ele se sentir tão frágil e tímido a ponto de entender que eu não sou confiável o suficiente pra cuidar dele.
Quando um paciente “mente”, eu prefiro achar que a minha consulta foi uma grande mentira ou como dizem meus conviveres no mais legítimo cearês...foi uma grande porcaria.
É me perguntaram isso recentemente.
“Não tem nada sobre seus pacientes no blog, em quase um mês de internato”.
Não tem mesmo. Não sei, não me sinto a vontade pra falar sobre eles, afinal o que eu sei mesmo sobre eles?
A pressão arterial? O pulso? Os diagnósticos diferenciais?
Em tese, eu deveria me conhecer e ainda sei tão pouco sobre o que realmente posso fazer, ou como diriam os textos romanescos, o que sou capaz de fazer.
Então, seria muito injusto falar o que os meus pacientes fizeram, disseram...não, não dá pra dizer. Não é por causa do código de ética médica, tão citado quando alguém que não é/vai ser médico cita quando inicia uma discussão sem sentido sobre o que o “médico tem que fazer”. Não é por isso.
É porque eu sou uma interpretação. É porque eu vejo a vida deles e as coisas que eles me dizem como eu inconscientemente julgo que são. Eu não sei e não posso saber a verdade, o que é verdade, o que é mentira? Eu não quero fazer parte desse circo de “programa da tarde”.
Aliás, porque tem gente que acha que o HU é igual a um certo seriado popular de 40 minutos? “Os pacientes mentem”. “Isso é o que eles dizem, mas você tem que filtrar”.
Nessas horas um palavrão sempre surge no pensamento que sai em floquinhos invisíveis da minha cabeça, daqueles que saem dando voltinhas com o vento enquanto você faz cara de paisagem, esboça um sorriso simpático e finge que concorda com o “palestrante”.
Se o paciente “mente”, por que ele que fez alguma coisa de errado e não eu que perguntei tudo da forma errada? Fazendo ele se sentir tão frágil e tímido a ponto de entender que eu não sou confiável o suficiente pra cuidar dele.
Quando um paciente “mente”, eu prefiro achar que a minha consulta foi uma grande mentira ou como dizem meus conviveres no mais legítimo cearês...foi uma grande porcaria.
O interno e o pintinho
(escrito em 20 de janeiro de 2011)
Ser interno é mais ou menos como se você fosse um pintinho que acabou de sair do ovo.
Você ficou lá quatro anos, protegido, na medida do possível dos percalços de um sistema de saúde bagunçado e semi-falido e de repente quando você nem pediu pra sair...pufi...vem um residente e quebra sua casquinha.
Se você tiver sorte, sua mamãe ou seu papai pinto (seu primeiro residente) vai ser muito legal e vai dizer a prescrição item por item e vai contar tudo sobre o “povo mau” do posto de enfermagem, que esconde a prescrição e fica te enxotando, quando você mal tem penas.
Ele(a) vai te proteger das atendentes ensandecidas e dos staffs de mau humor. Além de parecer ser a única pessoa do universo em que você irá acreditar se ele(a) disser que o paciente tem macicez móvel ... rsrsrsrs.
Uma mamãe e um papai pinto são seres de extrema importância, afinal é seu primeiro modelo do mundo real e você pode virar um franguinho de granja, branquinho, forte e feliz, ou um terrível capote, preto de bolinha branca, gauche e rabugento, depois dessa experiência.
Eventualmente, você entra pra lista de adoção e outras pessoas vão cuidar de você. Umas vão deixar de ter dar comida, outras vão deixar de te dar atenção, outras vão deixar o “povo mau” te fazer de gato e sapato, mas nem tudo é desgraça e vão existir aqueles que vão cuidar de você de verdade.
Anos depois vai ter seus próprios pintinhos, que depois vão ter os deles e depois outros e mais outros pintinhos.
Não mesmo ! Meus pintinhos não virar capote !
Posso dizer que tive sorte.
Obs: Capote = cearês para Galinha D'Angola
Ser interno é mais ou menos como se você fosse um pintinho que acabou de sair do ovo.
Você ficou lá quatro anos, protegido, na medida do possível dos percalços de um sistema de saúde bagunçado e semi-falido e de repente quando você nem pediu pra sair...pufi...vem um residente e quebra sua casquinha.
Se você tiver sorte, sua mamãe ou seu papai pinto (seu primeiro residente) vai ser muito legal e vai dizer a prescrição item por item e vai contar tudo sobre o “povo mau” do posto de enfermagem, que esconde a prescrição e fica te enxotando, quando você mal tem penas.
Ele(a) vai te proteger das atendentes ensandecidas e dos staffs de mau humor. Além de parecer ser a única pessoa do universo em que você irá acreditar se ele(a) disser que o paciente tem macicez móvel ... rsrsrsrs.
Uma mamãe e um papai pinto são seres de extrema importância, afinal é seu primeiro modelo do mundo real e você pode virar um franguinho de granja, branquinho, forte e feliz, ou um terrível capote, preto de bolinha branca, gauche e rabugento, depois dessa experiência.
Eventualmente, você entra pra lista de adoção e outras pessoas vão cuidar de você. Umas vão deixar de ter dar comida, outras vão deixar de te dar atenção, outras vão deixar o “povo mau” te fazer de gato e sapato, mas nem tudo é desgraça e vão existir aqueles que vão cuidar de você de verdade.
Anos depois vai ter seus próprios pintinhos, que depois vão ter os deles e depois outros e mais outros pintinhos.
Não mesmo ! Meus pintinhos não virar capote !
Posso dizer que tive sorte.
Obs: Capote = cearês para Galinha D'Angola
Internato dia 01
(escrito em 01 de janeiro de 2011)
Nenhum paciente. Nenhum Staff. Nenhum residente.
Você consegue imaginar? Um hospital universitário quase que totalmente vazio?
Nunca vi o hospital assim. Sem colchas, sem soro pingando, sem o barulho dos ventiladores gigantes da enfermaria.
Pois foi o que aconteceu. Não tinha ninguém, ou quase ninguém. Apenas quatro pacientes e montes de leitos vazios.
Isso me fez lembrar as ligações noturnas da central de leitos do município à Maternidade Escola, procurando, ou melhor, implorando por leitos, afinal se uma gestante morrer sem atendimento ela vira manchete, mas quem se importa com todos os outros que não vão aparecer na TV?
O Hospital Universitário está completamente abandonado. Ninguém sabe quem paga suas contas, ninguém sabe onde foi parar a emergência, faltam insumos. Será que esses são os únicos problemas?
Poderíamos culpar a política, o governo, tantas entidades. Dessas entidades que se comenta à mesa do jantar, que parecem tão distantes e levam sempre a culpa. Mas, para onde foram todos esses médicos, todos esses ex-alunos, todas essas pessoas que um dia passaram por aqui? Por que ninguém faz nada, por que ninguém nunca fez nada?
“Não é minha culpa”.”Não sou administrador”.”Eu mereço o dinheiro que ganho”.”Não me meto nessas questões”.
Eh, eu também não entendo.
Sai de casa como mais 82 alunos. Numa grande agonia. “Não posso me atrasar”. “É meu primeiro dia”. “Será que vou saber alguma coisa”.
No final, continuo como há um mês atrás, não sou interna coisa nenhuma.
Nenhum paciente. Nenhum Staff. Nenhum residente.
Você consegue imaginar? Um hospital universitário quase que totalmente vazio?
Nunca vi o hospital assim. Sem colchas, sem soro pingando, sem o barulho dos ventiladores gigantes da enfermaria.
Pois foi o que aconteceu. Não tinha ninguém, ou quase ninguém. Apenas quatro pacientes e montes de leitos vazios.
Isso me fez lembrar as ligações noturnas da central de leitos do município à Maternidade Escola, procurando, ou melhor, implorando por leitos, afinal se uma gestante morrer sem atendimento ela vira manchete, mas quem se importa com todos os outros que não vão aparecer na TV?
O Hospital Universitário está completamente abandonado. Ninguém sabe quem paga suas contas, ninguém sabe onde foi parar a emergência, faltam insumos. Será que esses são os únicos problemas?
Poderíamos culpar a política, o governo, tantas entidades. Dessas entidades que se comenta à mesa do jantar, que parecem tão distantes e levam sempre a culpa. Mas, para onde foram todos esses médicos, todos esses ex-alunos, todas essas pessoas que um dia passaram por aqui? Por que ninguém faz nada, por que ninguém nunca fez nada?
“Não é minha culpa”.”Não sou administrador”.”Eu mereço o dinheiro que ganho”.”Não me meto nessas questões”.
Eh, eu também não entendo.
Sai de casa como mais 82 alunos. Numa grande agonia. “Não posso me atrasar”. “É meu primeiro dia”. “Será que vou saber alguma coisa”.
No final, continuo como há um mês atrás, não sou interna coisa nenhuma.
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