sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Porque eu não falei nada ainda sobre meus pacientes

(escrito em 21 de janeiro de 2011)

É me perguntaram isso recentemente.

“Não tem nada sobre seus pacientes no blog, em quase um mês de internato”.

Não tem mesmo. Não sei, não me sinto a vontade pra falar sobre eles, afinal o que eu sei mesmo sobre eles?

A pressão arterial? O pulso? Os diagnósticos diferenciais?

Em tese, eu deveria me conhecer e ainda sei tão pouco sobre o que realmente posso fazer, ou como diriam os textos romanescos, o que sou capaz de fazer.

Então, seria muito injusto falar o que os meus pacientes fizeram, disseram...não, não dá pra dizer. Não é por causa do código de ética médica, tão citado quando alguém que não é/vai ser médico cita quando inicia uma discussão sem sentido sobre o que o “médico tem que fazer”. Não é por isso.

É porque eu sou uma interpretação. É porque eu vejo a vida deles e as coisas que eles me dizem como eu inconscientemente julgo que são. Eu não sei e não posso saber a verdade, o que é verdade, o que é mentira? Eu não quero fazer parte desse circo de “programa da tarde”.

Aliás, porque tem gente que acha que o HU é igual a um certo seriado popular de 40 minutos? “Os pacientes mentem”. “Isso é o que eles dizem, mas você tem que filtrar”.

Nessas horas um palavrão sempre surge no pensamento que sai em floquinhos invisíveis da minha cabeça, daqueles que saem dando voltinhas com o vento enquanto você faz cara de paisagem, esboça um sorriso simpático e finge que concorda com o “palestrante”.

Se o paciente “mente”, por que ele que fez alguma coisa de errado e não eu que perguntei tudo da forma errada? Fazendo ele se sentir tão frágil e tímido a ponto de entender que eu não sou confiável o suficiente pra cuidar dele.

Quando um paciente “mente”, eu prefiro achar que a minha consulta foi uma grande mentira ou como dizem meus conviveres no mais legítimo cearês...foi uma grande porcaria.

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