As pessoas têm poderes incríveis.
Nah, não é um texto piegas de esperança e cura e blá blá blá wiskas saché.
É um texto acerca de como algumas pessoas tentam desesperadamente arruinar a vida dos outros e a delas. Porque vamos falar a verdade, pessoas são as únicas que tem esse poder. Um instinto de maldade, de prazer pelo desprazer.
Existem aquelas frases existenciais do tipo “o outro só tem o poder que você dá a ele”. Certo, mas isso é o que é, frase de auto-ajuda. Frase a ser falada quando algo já aconteceu e você tenta juntar pedaços quebrados em uma enorme agonia.
Uma agonia terrível, um aperto, um sintoma sem descrição. Vontade de chutar alguma coisa. Vontade de alto flagelo. Não pelo que o outro fez, mas pelo simples fato de que você não pôde fazer nada, você não pôde dizer nada.
Aquilo que eu sinto e você sente quando alguém por motivo algum, ou por um motivo completamente sem sentido, tenta encher o próprio ego disforme rebaixando o seu. Quando uma pessoa escolhe que naquele dia, naquele momento, a felicidade que você construiu juntando pocinhas de acontecimentos alegres e meio bobos tem que ser desfeita porque ela precisa se sentir ilusóriamente maior.
Essas pessoas são tão difíceis de descrever. Eu não teria argumentos suficientes, não seria incisiva o suficiente, eu não poderia...eu não conseguiria...
Por que as pessoas que acham que tem opinião, não têm de fato opinião nenhuma e são mais vazias que barulho de concha em fim de tarde?
Por que eu tenho que dar ouvidos a essas pessoas?
Elas NUNCA vão cuidar das minhas pessoas.
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
E foi de alta...
(escrito em 21 de janeiro de 2011 - 24h de criatividade)
E meu primeiro paciente internado (a rigor, o segundo) foi de alta. Pelo menos eu espero, às 15h ele ainda estava aguardando um carro, que vinha de um longínquo interior, levá-lo para casa.
Eu aprendi a prescrever, a evoluir, a prescrever de novo, a solicitar exames, a chegar cedo, a disputar o tensiômetro...esse tipo de coisa.
O dia foi bem produtivo. Consultei um paciente no ambulatório, um paciente que não era “protocolo de pesquisa” (rsrsrs) e de fato eu sabia o que ele tinha, e eu sabia que conduta tomar sozinha e eu sabia explicar o porquê dos exames e o porquê da medicação e um monte de outros “e”.
E...hoje eu passei o dia quase inteiro em observação letárgica.
Em oito dias, eu não dormi, descansei, eu não comi, engoli. Não que eu esteja achando essas as piores coisas do universo, surpreendentemente eu não tive preguiça de ir ao hospital nenhuma vez nesses 20 dias, deixei de fazer/ler coisas para dormir mais cedo e chegar mais cedo ainda no outro dia. Sabe, eu quis fazer tudo direitinho. Acho que eu devo ter de fato alguma aptidão pra ser médica, kkkkk.
Mas...ninguém pode viver o tempo todo assim. Embora eu saiba que minha vida vá ser assim uns 90% do tempo pelos próximos 6 ou 7 anos. Ainda faltam mais dois de internato, um dando plantão como recém-formada por aí, três de residência e depois...se tudo der certo...meu doutorado acesso direto. Não dá pra viver assim. Depois de oito dias eu queria ver meus amigos, eu queria viver a minha vida, tive saudade de tudo e de todos, dos meus cheirinhos familiares e não dos de outra pessoa.
E aí, eu fiquei lembrando de todas aquelas histórias que a gente ouve na faculdade, de pessoas que vivem medicina o tempo todo, que perdem a família ou nem chegam a construir uma, que fazem do repouso médico seu segundo lar. Não posso fazer isso. E não acho que eu esteja me afastando do modelo do médico ideal por isso, pelo contrário. Eu quero poder cuidar das pessoas sem deixar de cuidar de mim, eu quero ter – e acho que aprendi um pouco a ter essa semana – a exata medida de que a minha vida é tão importante quanto a das pessoas que eu cuido.
Nesses dias conheci tantas pessoas novas, conheci novas “velhas pessoas”, conheci pessoas tão doces e tão tranqüilas, que vivem com a medicina e não a medicina.
Pessoas que souberam construír um “pra quê” e um “pra quem” voltar no fim do dia. Que vivem seus desejos e suas aspirações sem precisar estabelecer patamares esdrúxulos de prioridades e, ainda assim, fazem o que podem por pessoas que nunca viram.
Talvez essas sejam as pessoas realmente felizes COM a medicina.
E meu primeiro paciente internado (a rigor, o segundo) foi de alta. Pelo menos eu espero, às 15h ele ainda estava aguardando um carro, que vinha de um longínquo interior, levá-lo para casa.
Eu aprendi a prescrever, a evoluir, a prescrever de novo, a solicitar exames, a chegar cedo, a disputar o tensiômetro...esse tipo de coisa.
O dia foi bem produtivo. Consultei um paciente no ambulatório, um paciente que não era “protocolo de pesquisa” (rsrsrs) e de fato eu sabia o que ele tinha, e eu sabia que conduta tomar sozinha e eu sabia explicar o porquê dos exames e o porquê da medicação e um monte de outros “e”.
E...hoje eu passei o dia quase inteiro em observação letárgica.
Em oito dias, eu não dormi, descansei, eu não comi, engoli. Não que eu esteja achando essas as piores coisas do universo, surpreendentemente eu não tive preguiça de ir ao hospital nenhuma vez nesses 20 dias, deixei de fazer/ler coisas para dormir mais cedo e chegar mais cedo ainda no outro dia. Sabe, eu quis fazer tudo direitinho. Acho que eu devo ter de fato alguma aptidão pra ser médica, kkkkk.
Mas...ninguém pode viver o tempo todo assim. Embora eu saiba que minha vida vá ser assim uns 90% do tempo pelos próximos 6 ou 7 anos. Ainda faltam mais dois de internato, um dando plantão como recém-formada por aí, três de residência e depois...se tudo der certo...meu doutorado acesso direto. Não dá pra viver assim. Depois de oito dias eu queria ver meus amigos, eu queria viver a minha vida, tive saudade de tudo e de todos, dos meus cheirinhos familiares e não dos de outra pessoa.
E aí, eu fiquei lembrando de todas aquelas histórias que a gente ouve na faculdade, de pessoas que vivem medicina o tempo todo, que perdem a família ou nem chegam a construir uma, que fazem do repouso médico seu segundo lar. Não posso fazer isso. E não acho que eu esteja me afastando do modelo do médico ideal por isso, pelo contrário. Eu quero poder cuidar das pessoas sem deixar de cuidar de mim, eu quero ter – e acho que aprendi um pouco a ter essa semana – a exata medida de que a minha vida é tão importante quanto a das pessoas que eu cuido.
Nesses dias conheci tantas pessoas novas, conheci novas “velhas pessoas”, conheci pessoas tão doces e tão tranqüilas, que vivem com a medicina e não a medicina.
Pessoas que souberam construír um “pra quê” e um “pra quem” voltar no fim do dia. Que vivem seus desejos e suas aspirações sem precisar estabelecer patamares esdrúxulos de prioridades e, ainda assim, fazem o que podem por pessoas que nunca viram.
Talvez essas sejam as pessoas realmente felizes COM a medicina.
Porque eu não falei nada ainda sobre meus pacientes
(escrito em 21 de janeiro de 2011)
É me perguntaram isso recentemente.
“Não tem nada sobre seus pacientes no blog, em quase um mês de internato”.
Não tem mesmo. Não sei, não me sinto a vontade pra falar sobre eles, afinal o que eu sei mesmo sobre eles?
A pressão arterial? O pulso? Os diagnósticos diferenciais?
Em tese, eu deveria me conhecer e ainda sei tão pouco sobre o que realmente posso fazer, ou como diriam os textos romanescos, o que sou capaz de fazer.
Então, seria muito injusto falar o que os meus pacientes fizeram, disseram...não, não dá pra dizer. Não é por causa do código de ética médica, tão citado quando alguém que não é/vai ser médico cita quando inicia uma discussão sem sentido sobre o que o “médico tem que fazer”. Não é por isso.
É porque eu sou uma interpretação. É porque eu vejo a vida deles e as coisas que eles me dizem como eu inconscientemente julgo que são. Eu não sei e não posso saber a verdade, o que é verdade, o que é mentira? Eu não quero fazer parte desse circo de “programa da tarde”.
Aliás, porque tem gente que acha que o HU é igual a um certo seriado popular de 40 minutos? “Os pacientes mentem”. “Isso é o que eles dizem, mas você tem que filtrar”.
Nessas horas um palavrão sempre surge no pensamento que sai em floquinhos invisíveis da minha cabeça, daqueles que saem dando voltinhas com o vento enquanto você faz cara de paisagem, esboça um sorriso simpático e finge que concorda com o “palestrante”.
Se o paciente “mente”, por que ele que fez alguma coisa de errado e não eu que perguntei tudo da forma errada? Fazendo ele se sentir tão frágil e tímido a ponto de entender que eu não sou confiável o suficiente pra cuidar dele.
Quando um paciente “mente”, eu prefiro achar que a minha consulta foi uma grande mentira ou como dizem meus conviveres no mais legítimo cearês...foi uma grande porcaria.
É me perguntaram isso recentemente.
“Não tem nada sobre seus pacientes no blog, em quase um mês de internato”.
Não tem mesmo. Não sei, não me sinto a vontade pra falar sobre eles, afinal o que eu sei mesmo sobre eles?
A pressão arterial? O pulso? Os diagnósticos diferenciais?
Em tese, eu deveria me conhecer e ainda sei tão pouco sobre o que realmente posso fazer, ou como diriam os textos romanescos, o que sou capaz de fazer.
Então, seria muito injusto falar o que os meus pacientes fizeram, disseram...não, não dá pra dizer. Não é por causa do código de ética médica, tão citado quando alguém que não é/vai ser médico cita quando inicia uma discussão sem sentido sobre o que o “médico tem que fazer”. Não é por isso.
É porque eu sou uma interpretação. É porque eu vejo a vida deles e as coisas que eles me dizem como eu inconscientemente julgo que são. Eu não sei e não posso saber a verdade, o que é verdade, o que é mentira? Eu não quero fazer parte desse circo de “programa da tarde”.
Aliás, porque tem gente que acha que o HU é igual a um certo seriado popular de 40 minutos? “Os pacientes mentem”. “Isso é o que eles dizem, mas você tem que filtrar”.
Nessas horas um palavrão sempre surge no pensamento que sai em floquinhos invisíveis da minha cabeça, daqueles que saem dando voltinhas com o vento enquanto você faz cara de paisagem, esboça um sorriso simpático e finge que concorda com o “palestrante”.
Se o paciente “mente”, por que ele que fez alguma coisa de errado e não eu que perguntei tudo da forma errada? Fazendo ele se sentir tão frágil e tímido a ponto de entender que eu não sou confiável o suficiente pra cuidar dele.
Quando um paciente “mente”, eu prefiro achar que a minha consulta foi uma grande mentira ou como dizem meus conviveres no mais legítimo cearês...foi uma grande porcaria.
O interno e o pintinho
(escrito em 20 de janeiro de 2011)
Ser interno é mais ou menos como se você fosse um pintinho que acabou de sair do ovo.
Você ficou lá quatro anos, protegido, na medida do possível dos percalços de um sistema de saúde bagunçado e semi-falido e de repente quando você nem pediu pra sair...pufi...vem um residente e quebra sua casquinha.
Se você tiver sorte, sua mamãe ou seu papai pinto (seu primeiro residente) vai ser muito legal e vai dizer a prescrição item por item e vai contar tudo sobre o “povo mau” do posto de enfermagem, que esconde a prescrição e fica te enxotando, quando você mal tem penas.
Ele(a) vai te proteger das atendentes ensandecidas e dos staffs de mau humor. Além de parecer ser a única pessoa do universo em que você irá acreditar se ele(a) disser que o paciente tem macicez móvel ... rsrsrsrs.
Uma mamãe e um papai pinto são seres de extrema importância, afinal é seu primeiro modelo do mundo real e você pode virar um franguinho de granja, branquinho, forte e feliz, ou um terrível capote, preto de bolinha branca, gauche e rabugento, depois dessa experiência.
Eventualmente, você entra pra lista de adoção e outras pessoas vão cuidar de você. Umas vão deixar de ter dar comida, outras vão deixar de te dar atenção, outras vão deixar o “povo mau” te fazer de gato e sapato, mas nem tudo é desgraça e vão existir aqueles que vão cuidar de você de verdade.
Anos depois vai ter seus próprios pintinhos, que depois vão ter os deles e depois outros e mais outros pintinhos.
Não mesmo ! Meus pintinhos não virar capote !
Posso dizer que tive sorte.
Obs: Capote = cearês para Galinha D'Angola
Ser interno é mais ou menos como se você fosse um pintinho que acabou de sair do ovo.
Você ficou lá quatro anos, protegido, na medida do possível dos percalços de um sistema de saúde bagunçado e semi-falido e de repente quando você nem pediu pra sair...pufi...vem um residente e quebra sua casquinha.
Se você tiver sorte, sua mamãe ou seu papai pinto (seu primeiro residente) vai ser muito legal e vai dizer a prescrição item por item e vai contar tudo sobre o “povo mau” do posto de enfermagem, que esconde a prescrição e fica te enxotando, quando você mal tem penas.
Ele(a) vai te proteger das atendentes ensandecidas e dos staffs de mau humor. Além de parecer ser a única pessoa do universo em que você irá acreditar se ele(a) disser que o paciente tem macicez móvel ... rsrsrsrs.
Uma mamãe e um papai pinto são seres de extrema importância, afinal é seu primeiro modelo do mundo real e você pode virar um franguinho de granja, branquinho, forte e feliz, ou um terrível capote, preto de bolinha branca, gauche e rabugento, depois dessa experiência.
Eventualmente, você entra pra lista de adoção e outras pessoas vão cuidar de você. Umas vão deixar de ter dar comida, outras vão deixar de te dar atenção, outras vão deixar o “povo mau” te fazer de gato e sapato, mas nem tudo é desgraça e vão existir aqueles que vão cuidar de você de verdade.
Anos depois vai ter seus próprios pintinhos, que depois vão ter os deles e depois outros e mais outros pintinhos.
Não mesmo ! Meus pintinhos não virar capote !
Posso dizer que tive sorte.
Obs: Capote = cearês para Galinha D'Angola
Internato dia 01
(escrito em 01 de janeiro de 2011)
Nenhum paciente. Nenhum Staff. Nenhum residente.
Você consegue imaginar? Um hospital universitário quase que totalmente vazio?
Nunca vi o hospital assim. Sem colchas, sem soro pingando, sem o barulho dos ventiladores gigantes da enfermaria.
Pois foi o que aconteceu. Não tinha ninguém, ou quase ninguém. Apenas quatro pacientes e montes de leitos vazios.
Isso me fez lembrar as ligações noturnas da central de leitos do município à Maternidade Escola, procurando, ou melhor, implorando por leitos, afinal se uma gestante morrer sem atendimento ela vira manchete, mas quem se importa com todos os outros que não vão aparecer na TV?
O Hospital Universitário está completamente abandonado. Ninguém sabe quem paga suas contas, ninguém sabe onde foi parar a emergência, faltam insumos. Será que esses são os únicos problemas?
Poderíamos culpar a política, o governo, tantas entidades. Dessas entidades que se comenta à mesa do jantar, que parecem tão distantes e levam sempre a culpa. Mas, para onde foram todos esses médicos, todos esses ex-alunos, todas essas pessoas que um dia passaram por aqui? Por que ninguém faz nada, por que ninguém nunca fez nada?
“Não é minha culpa”.”Não sou administrador”.”Eu mereço o dinheiro que ganho”.”Não me meto nessas questões”.
Eh, eu também não entendo.
Sai de casa como mais 82 alunos. Numa grande agonia. “Não posso me atrasar”. “É meu primeiro dia”. “Será que vou saber alguma coisa”.
No final, continuo como há um mês atrás, não sou interna coisa nenhuma.
Nenhum paciente. Nenhum Staff. Nenhum residente.
Você consegue imaginar? Um hospital universitário quase que totalmente vazio?
Nunca vi o hospital assim. Sem colchas, sem soro pingando, sem o barulho dos ventiladores gigantes da enfermaria.
Pois foi o que aconteceu. Não tinha ninguém, ou quase ninguém. Apenas quatro pacientes e montes de leitos vazios.
Isso me fez lembrar as ligações noturnas da central de leitos do município à Maternidade Escola, procurando, ou melhor, implorando por leitos, afinal se uma gestante morrer sem atendimento ela vira manchete, mas quem se importa com todos os outros que não vão aparecer na TV?
O Hospital Universitário está completamente abandonado. Ninguém sabe quem paga suas contas, ninguém sabe onde foi parar a emergência, faltam insumos. Será que esses são os únicos problemas?
Poderíamos culpar a política, o governo, tantas entidades. Dessas entidades que se comenta à mesa do jantar, que parecem tão distantes e levam sempre a culpa. Mas, para onde foram todos esses médicos, todos esses ex-alunos, todas essas pessoas que um dia passaram por aqui? Por que ninguém faz nada, por que ninguém nunca fez nada?
“Não é minha culpa”.”Não sou administrador”.”Eu mereço o dinheiro que ganho”.”Não me meto nessas questões”.
Eh, eu também não entendo.
Sai de casa como mais 82 alunos. Numa grande agonia. “Não posso me atrasar”. “É meu primeiro dia”. “Será que vou saber alguma coisa”.
No final, continuo como há um mês atrás, não sou interna coisa nenhuma.
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