Nunca tive dúvidas para onde eu iria no internato. Pelo menos essa dúvida eu nunca tive. Mesmo quando eu nem sabia o que era internato eu sempre soube pra onde eu queria ir.
Eu sempre soube,todas vezes que eu passei tão triste pela rua do ladinho do HU, indo chorar sozinha a noite porque ia estudar um ano inteirinho de novo, nas vezes que não passei no vestibular.
Eu sempre soube quando umas pessoas acharam que eu não iria nunca conseguir, quando outras me disseram “faz Direito”. Acho que eu sempre soube, até quando eu comecei a escolher e achava sempre que minhas mãos enormes não iriam ter muita serventia em outras profissões.
O HU é esse lugar mágico e bem velhinho que fica lá no antigo Porangabussú. Tem lajotinhas branco gelo e cheirinho de sabão sábado de manhã, quando os pacientes saem das enfermarias pra moça arrumar e ficam contando os diagnósticos uns pros outros.
O HU tem muitos e muitos caminhos, que eu demorei uns dois semestres pra aprender a não me perder lá por dentro.
Lá dentro tem quase tudo que eu já aprendi, com quase todo mundo que já me ensinou alguma coisa. Tem quase todos os meus erros estudantis e os meus acertos também.
Foi lá que eu falei com um estranho pela primeira vez e ele me contou a vida dele e eu jurei internamente, mesmo sem ele me pedir, que eu não iria contar pra ninguém. E eu nunca contei mesmo.
Foi lá que eu descobri que as pessoas são mesmo muito confusas, mas que eu acho muito bacana lidar com elas. É lá que até hoje eu procuro aquele médico de mentira que a gente sempre pensa que existe, que é calmo, tranqüilo, que sabe de tudo, é humilde, se veste de branco e é muito engraçado...um que nunca se estressa, hahahahahaha. Até agora achei alguns protótipos apenas. Sem “perhaps” !
O HU não é o melhor serviço, não mesmo. Se eu quisesse o maior, o que tem tudo, eu escolheria o HGF. Mas não...lá não tem tudo.
Quando eu surtar e eu vou surtar em algum momento nos próximos 2 anos, eu não vou poder atravessar a rua e achar alguém que me ajude. O HGF não é lá na biblioteca.
Quando minha manhã for uma droga e meu staff incompreensivo eu não vou ter pra quem contar tudo no almoço...quem vai me dizer que no final tudo vai dar certo?
Quando meu paciente morrer e algum deles vai morrer...eu não vou poder descer na pediatria...ou subir na cirurgia e morrer de chorar desfazendo minha cara de paisagem e minha calma aparente com alguém que me compreenda.
O HU é minha casa, sabe?
Eu moro lá desde 2007...eu almoço lá, eventualmente eu cochilo lá, eu dou risada lá...eu sou feliz lá...então...qual o sentido de sair de casa justamente no período mais importante, polarizado e confuso da minha vida de estudante?
Não, não...de um modo ou de outro, eu sempre soube onde queria ficar.
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